Conto: Podridão

Arte por Kay Nielsen.

A chuva cai gélida lá fora. Enfurnado em sua torre, o homem — outrora um reles aldeão, agora tornado um poderoso mago — busca, em seus inúmeros tomos de magia e livros de variados conhecimentos, uma maneira de alcançar seu próximo objetivo. Um cajado mágico, seu item de poder, um sinal de sua ascensão. Viajara pelo cosmos, enfrentara criaturas impensáveis, fizera o impossível. Aquilo seria um item à sua altura.

Sua cabeça lateja. Desde que aquele verme exótico encontrado na estranha terra de Hécate invadiu seu corpo e a fez morada, o feiticeiro sofreu transformações terríveis. Seu cérebro expandiu-se; seu crânio tornou-se enorme e bulboso. Seus pensamentos mudaram? Ele não sabe dizer ao certo. Talvez sim. Talvez seja isso que lhe influenciara os sonhos de grandeza. Mas, agora, isso não importa.

Ele vira mais uma página. Nada. Nenhuma resposta. Seus olhos cansados lacrimejam. Os sapos coaxam lá fora. Que estranho. Do alto de sua torre e com o som alto da chuva, não deveria ser possível ouvir esses ruídos.

Pensamentos tolos. Desfocados.

Ele se levanta de sua escrivaninha e alcança um novo livro na estante. Ao sentar-se, sente doer as costas. Há quanto tempo estaria estudando? E ele reflete enquanto alivia os ossos. Sente os cogumelos que lhe nasceram no corpo. Já se acostumara com os fungos.

Não importa que seu corpo seja morada de nojentos fungos. Não importa que seu cérebro tenha sido invadido por um verme de outro mundo. Não importa que tenha cicatrizes por todo o corpo, marcas de sacrifícios que, por livre vontade, decidiu realizar. Tudo isso é pela magia. Tudo isso é pelo poder.

E os sapos coaxam.

O mago gira a cabeça em confusão. Não, os sons não vêm lá de fora. Ao buscar com os olhos por sua câmara de estudos, ele vê uma turba de sapos espalhada pela sala. Como? Como chegaram ali? Como ele não os percebera antes?

Subitamente, as velas se apagam. O mago observa, atônito e paralisado, enquanto um círculo arcano se desenha no centro da sala, iluminando o local com um brilho doentio em tons de verde. O homem recupera a consciência e tenta se levantar da cadeira. Suas pernas falham, e ele cai. Nada pode fazer, a não ser observar a criatura monstruosa que emerge das inscrições mágicas.

A monstruosidade o observa — seus olhos esbugalhados, seu olhar espantoso penetrando a própria alma do mago, que se sente impotente diante de tão grotesca visão. Uma horrenda criatura anfíbia, com um corpo viscoso, inchado e repleto de verrugas. O coaxar dos sapos parece crescer. Em uníssono, entoam um cântico. Um nome. Algo quase incompreensível aos ouvidos humanos.

Bo. Bug. Bu. Bilz.

É uma fusão grotesca entre um sapo monstruoso e um ser que o mago sabe não ser mortal. Talvez um demônio. Talvez algo pior. Talvez algo mais poderoso.

Seu corpo exala um cheiro fétido e úmido, e sua voz soa como um coaxar gutural misturado com sussurros arcanos.

Ó, mago — ele fala —, observei sua incessante busca. Ouvi os murmúrios dos fungos que lhe crescem às costas. Acompanhei com interesse a maneira como está disposto a sacrificar aquilo que tem em prol daquilo que quer.

O mago se sente em um pesadelo. Sua cabeça lateja de maneira ainda mais intensa. Suas costas doem, coçam. Seus olhos ardem. Suas narinas são invadidas pelo cheiro pútrido daquele ser. Ele vomita. Em seu vômito, de alguma forma, observa sua imagem refletida. Subitamente, ele entende. Ele, assim como aquele que emergiu no centro da sala, é um monstro.

Venha até mim. Aceite-me como seu senhor. Torne-se um com os meus domínios. Caminhe pelos pântanos e faça da podridão sua mais fiel companheira. Sirva-me. Abandone o apreço pela carne. Torne-se podre, fétido, grotesco. Nada disso importará, pois você será capaz de obter aquilo que deseja.

A perversa abominação, então, se cala. O silêncio reina. Sequer a chuva ousa interromper o pronunciamento e o sussurro da ausência que se segue. A entidade, então, espera a resposta do mago.

E a chuva volta a cair gélida lá fora.

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